domingo, 24 de maio de 2015

Sobre a violência de sábado


No descuido do pensamento, no momento em que me distraio do jogo, eu me traio e remonto os atos.
Na saída lateral do shopping, num fim de tarde já escuro, com as luzes amarelas dos pontes da rua já acesas, o que julgo ser um garoto correndo desesperado, destrambelhado, sem saber, ao certo, para onde corria, fugindo de alguém como numa brincadeira, era apenas o que parecia.
 Tentando superar a capacidade de suas pernas, ele acabou entrando numa ruela de mão única, ali, tão próximo de um colégio caro, de religiosos. Mas o jovem de roupas largas não ia sozinho. Ao quebrar na esquina da rua de mão única um carro teve tempo de dar sinal e quebrar, ele também, a esquina.
Nessa altura dos acontecimentos eu ainda não sabia o que estava acontecendo, apenas pensei que era alguém despreocupado, indo para casa, que talvez, nem ao menos tivesse notado um possível meliante, como se costuma, por aí, dizer.
Mas o que doeu nos meus olhos, foi que quando alcancei aquela esquina, dentro do caro de vidros claros e não blindado o que vi foi mais uma daquelas cenas que só penso me deparar em filmes, documentários. É uma entre aquelas cenas que não imagino ver tão limpa diante dos meus olhos.
O garoto que antes corria, estava, agora, atirado no meio fio, com as mãos na cabeça, desesperado, enquanto que alguém lhe apontava uma arma e lhe dava ordens.
Pedi para que corresse, para que fizesse o carro andar mais rápido, mas não havia como, o carro da frente havia diminuído a velocidade, estava ele assistindo de camarote, a vida como ela é, o show de horrores que buscamos todos os dias em manchetes e capas de revista, sem nos darmos conta de que vivemos esse mundo em sua totalidade, dia após dia. Mas nós preferimos nos enganar, preferimos acreditar que a violência está longe, no outro bairro, na outra esquina. E talvez, depois de assistir o ato e de voltar a acelerar o carro, a cena seria esquecida e ele voltaria a proteção do seu carro caro e de vidro escuros, deixando de lado, o que acabava de assistir.
Minutos depois, parada na sinaleira, eu estava em choque, tremendo, incapaz de falar. “Que grande fraqueza”, você pode pensar! “Que grande fraqueza!”, posso eu pensar.
“Que mundo é esse?” É o que eu venho a pensar... Ainda sem conseguir me mexer no banco do carro...
Entre a insônia e o sono interrompido eu procurei em todos os jornais, sobre informações sobre aquele episódio, nada encontrei.
Mas agora, quando minha mente se perde, quando eu descuido o pensamento, eu vejo com nitidez um garoto jogado no chão, com uma arma, apontando para os meus miolos.
Eu tento calcular mentalmente quanto vale a vida. E eu tento refazer os cálculos, e eu vejo dois homens, um jogado no chão, o outro no alto, com uma arma na mão. E enquanto procuro moedas na carteira para o pedinte pendurado na janela eu pergunto incessantemente, tendo diante dos meus olhos a vida como ela é, “quanto vale a vida?”, “onde está agora o garoto que ontem estava jogado na rua de mão única?”.
O que quero concluir é que quero correr, o mais rápido possível para longe de tudo, para longe de tudo que não escapa aos olhos, para tudo que faz doer por dentro, sem que eu possa mudar. Quero correr daqui, quero andar e ter paz, não quero ver o que não pode deixar de ser visto... Eu não quero ver, mas eu não posso fechar os olhos. Eu quero acreditar que possa existir outra forma de ver a vida como ela é...

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